Está pintando um clima ?



Efraim Rodrigues - efraim@efraim.com.br 

 A coluna desta semana já estava pronta desde a semana passada. O tema inevitável é a reunião das Nações Unidas para discutir o clima, que está acontecendo em Bali. Igualmente inevitável é que reuniões grandes assim não produzam resultados proporcionais ao seu tamanho. Então, eu iria falar sobre a ineficiência de grandes reuniões, comparada com a pequena reunião sobre Ecologia que participei nesta semana em Curitiba.

Eu já tinha até o argumento que depois de tanta falação, querosene de aviação e copinhos plásticos gastos, a concentração de gás carbônico continua subindo, como o impávido colosso do nosso hino nacional.

Mas eis que os gigantes resolveram mover-se !

A China abandonou a antiga posição de alinhamento com os EUA, deixando-o isolado, como único pais do anexo 1 que não assinou o protocolo de Kyoto. A Austrália também assumiu compromissos arrojados, mas curiosamente, sua delegação foi desmentida pelo premiê Kevin Rudd. É o jeitinho australiano.

Não há ainda muito o que dizer sobre a posição brasileira, a não ser que provavelmente ela será contra o pagamento de créditos pelo desmatamento evitado. Se as taxas de desmatamento da Amazônia vem caindo (exclua o Mato Grosso desta estatística geral !), não seria interessante ganharmos com isto ?

O Brasil provavelmente vai se apoiar no argumento que a entrada de créditos de desmatamento evitado no mercado iria possibilitar aos paises poluidores comprar estes créditos e continuar poluindo. Ou seja, depois de toda esta movimentação financeira, ficaríamos no mesmo ponto. É um argumento razoável, que toca no grande problema do protocolo de Kyoto (eu posso pecar, desde que pague uma indulgência). Na verdade, ele é só uma estratégia para evitar que pagando para evitar o desmatamento, que se levante a tese da internacionalização da Amazônia.

Acho improvável que Estados Unidos um dia use suas armas para proteger a Amazônia da sanha desmatadora de seus atuais proprietários, pois ao contrário do petróleo do Oriente Próximo, a floresta oferece serviços ecológicos e comunitários para todo o planeta. Não é mais interessante deixar que os brasileiros sejam as babás de algo que traz benefícios para todos ? Nacionalistas, podem guardar suas bandeiras.

A grande discussão que a ONU pretendia conduzir com esta reunião, é sobre a criação de um fórum que ao longo de dois anos, definiria o que virá depois de Kyoto. Para a felicidade geral e bem estar do planeta (já que estamos citando os símbolos nacionalistas) os países estão se adiantando à agenda modorrenta da ONU.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor do livro Biologia da Conservação, e nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico.


 
 
 
 
 
 
 
 
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