ONG Noolhar lança o selo “Amigo dos Catadores”

A idéia é, em conjunto com os catadores, gerar lucro para a compra de ferramentas de trabalho 

Depois de procurar diversas alternativas para arrecadar verba e reverter em material de trabalho, catadores de materiais recicláveis de Belém, em parceria com a ONG Noolhar, idealizaram o Selo “Amigo dos Catadores”. O selo é um adesivo que a sociedade civil e empresários poderão comprar para ajudar catadores em seu objetivo: trabalhar com dignidade. “Será um adesivo para a pessoa colocar em casa, no trabalho e no carro, e dizer com orgulho que faz um trabalho de amor para Belém”, diz Patrícia Gonçalves, coordenadora da ONG Noolhar, que apóia os catadores.

A ambientalista conta que um dos grandes problemas enfrentados pelos catadores em na capital paranese é a falta de material e ferramentas para trabalhar. “O catador quer dignidade para fazer o seu trabalho. E o selo amigo é um projeto de iniciativa da sociedade onde cada cidadão do estado vai poder ter um pedaço dessa moeda solidária”, explica.

O dinheiro arrecadado com a venda dos adesivos, o selo “Amigo dos Catadores”, será revestido para a compra de um caminhão que fará a coleta seletiva do lixo pelas ruas de Belém, principalmente no centro comercial. “Quando o caminhão estiver rodando na cidade, as pessoas vão saber que ela fez parte daquele trabalho. Precisamos descruzar os braços e fazer algo por Belém”, ressalta Patrícia.

Serão dois tipos de selo: um será o “Amigo do Catador”, que estará à venda pela quantia de R$ 5 (cinco reais), e outro “Empresa Amiga do Catador”, com o qual empresas poderão aderir à causa e estipular os preços que irão adquirir os selos.

 Catadores pretendiam fazer um protesto para serem ouvidos

Depois de várias tentativas para conseguir apoio do poder publico municipal, os catadores decidiram fazer uma grande manifestação para serem ouvidos pela sociedade. “Eles nos procuraram com a intenção de fazer uma manifestação para ir aos órgãos públicos e conseguir os materiais de trabalho. A Noolhar pensou antes de fazer o protesto e elaborou uma campanha que abraçasse a causa da categoria”, comenta Patrícia.

Segundo a coordenadora da ONG, o desafio maior dos catadores era a articulação e a organização entre a categoria. “Temos que resolver o problema independente da questão política. Assim como o a Noolhar, eles também querem solucionar o problema que é o lixo”, ressalta. “Até hoje nunca vi um projeto em Belém que completasse a coleta seletiva, acabando com o acumulo de lixo. Sabemos que temos esse sério problema na nossa cidade”, completa.

O momento agora é de buscar parceiros para imprimir os selos e donos de lojas para revender. A idéia da Noolhar é fazer uma pequena caixa de acrílico na qual a pessoa pode depositar a quantia em dinheiro referente ao selo (R$ 5), e comprar o adesivo. “Essa caixinha pode estar em qualquer lugar, até em órgãos públicos”, diz. A prestação de contas vai ser disponibilizada no site da Noolhar, como também todos os pontos de venda do selo.

Lixo não é mais lixo!

A Associação dos Recicladores das Águas Lindas (Aral), ligada a Central Unida de Catadores, conta hoje com 73 catadores de materiais recicláveis, como gostam de ser chamados. Eles se dividem em grupos de trabalho atuando na comunidade onde moram, recolhendo materiais de porta em porta, indo até órgãos públicos que desperdiçam grande quantidade de material reciclável como papel e papelão, e por fim, nas ruas do centro comercial da capital.

“Cada grupo estipula os seus dias e horários de trabalho. Eles recolhem papel, plástico e ferro, e lixo tecnológico também”, diz o presidente da Aral, Marcelo Rocha. Ele conta que até óleo lubrificante de maquinas e óleo de cozinha, também são recolhidos pelos catadores. “Lixo não é mais lixo. Hoje tudo pode ser reciclado”, garante.

Os catadores vendem o material para uma empresa de Belém, de apenas duas  que existem na cidade e compram material reciclável. O óleo de maquinas chega a ir para a cidade de São Paulo, pneus, para a cidade de Fortaleza. “O plástico fica em Belém. Outra grande parte do material reciclável vai para o Maranhão”, revela Marcelo sobre o destino dos materiais que serão reciclados.

O quilo do papel misto custa R$ 0,10, a tonelada sai por R$ 100. No quilo do papelão, os catadores ganham R$ 0,07, ou R$ 70 pela tonelada. Já o papel branco é o mais caro. Os catadores recebem R$ 0,16 o quilo, lucrando R$ 160,00 a tonelada. A latinha de alumínio hoje custa R$ 1,00 o quilo.

Segundo Marcelo, os valores variam muito durante os meses e até semanas. “Esses valores variam de acordo com a demanda. Tem gente que ganha mais porque tem contato com empresas que geram bastante lixo reciclável”, comenta. A média mensal de renda de Marcelo é de R$ 350, menos do que um salário mínimo que hoje está em R$ 550.

“Queremos conseguir um caminhão para coletar o material. Hoje pagamos a diária de um carro e está gerando muito gastos. Levamos tudo para o nosso centro de triagem”, diz Marcelo. Ele é catador há 28 anos e espera que desta vez, com o apoio da ONG Noolhar, seu trabalho seja reconhecido pela sociedade. “A nossa expectativa é que a sociedade participe com a gente do nosso trabalho. Não existem hoje políticas públicas para a coleta seletiva do lixo. Quando houver, a discussão sobre o assunto vai melhorar na sociedade e teremos um melhor entendimento sobre os problemas ambientais de Belém”, finaliza Marcelo.

Serviço:

Mais informações sobre ponto de venda dos selos na ONG Noolhar, pelo telefone: 3222-2277

Jornal Amazônia - 16/05/2010

 
 
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