Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais patrocinado pela Vale não deixa dúvida: a Amazônia já sofre forte influência das mudanças climáticas. O estudo inédito, com alto detalhamento regional, inclusão de dados meteorológicos do Instituto Nacional de Meteorologia, combinados com critérios globais como os adotados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) mostram que as áreas de estudo (os Estados do Pará e Maranhão) apresentam vulnerabilidade climática muito alta, comparável ao semi-árido do Brasil, prevendo-se um clima mais seco que o atual.

"Algumas áreas receberão chuvas intensas concentradas em períodos curtos, seguidos de longos períodos sem a ocorrência de chuva e com altas temperaturas diurnas e noturnas. Nestas condições, o balanço hidrológico poderá sofrer alterações (e já vem sofrendo), ocorrendo períodos de deficiência hídrica futura, inexistentes no clima atual, o que pode conseqüentemente afetar a vegetação nativa e a agricultura regional", informa o relatório, o primeiro de uma série de três sobre a vulnerabilidades da região amazônica.
Os modelos climáticos regionais (RegCM3, HadRM3P e Eta CCS) usados pelos pesquisadores do Inpe apontam, para a segunda metade do Século 21, clima mais quente (até 6ºC num cenário de altas emissões de gases de efeito estufa, que não obedeçam as metas definidas no Protocolo de Kyoto) e reduções de chuva que podem chegar até 2-4 mm/dia, quando comparado ao clima presente para a região de estudo (que segundo o Relatório de Clima do Inpe pode chegar até 40-50%).
"As projeções de extremos climáticos para a região, simuladas pelos modelos globais do IPCC AR4 e pelos modelos regionais, são consistentes com um aumento na freqüência e intensidade de extremos de chuva e no aumento da freqüência de dias secos consecutivos. O aumento na freqüência de noites e dias quentes e a redução na freqüência de noites e dias frios são projetados pelos modelos globais do IPCC AR4 e estão em concordância apenas com o modelo regional HadRM3P", diz o trabalho.
Os pesquisadores do Inpe estudaram a potencial variação em três períodos: 2010 a 2040, 2041 a 2070 e 2071 a 2100. O relatório mostra o clima na região se tornará cada vez mais quente ao longo do século. Já entre 2010 e 2040, a temperatura deve subir 2 graus centígrados do leste do Pará até o Maranhão. De 2041 a 2070, essa alta dobra, 4 graus centígrados. O mais preocupante é que, em qualquer dos cenários, o regime de chuvas deve sofrer praticamente o mesmo impacto: redução de 10% no primeiro período e de 20% no segundo. Para o período de 2071 a 2100, a conclusão do relatório é de aumento ainda maior da temperatura, podendo se elevar em 7 graus na região leste da Amazônia, com alternância de períodos longos de clima seco, com chuvas concentradas em poucas épocas do ano.
O coordenador-adjunto do estudo do Inpe, Gilvan Sampaio, afirmou que a região é uma das mais vulneráveis ao aquecimento, porque está sob influência de importantes eixos climáticos e vem apresentando radicalização nos regimes de chuva e temperatura. "Os extremos climáticos estão cada vez mais freqüentes. Os períodos mais quentes estão ainda mais quentes, as chuvas estão cada vez mais concentradas e as secas de prolongam." Segundo ele, em todo o século 20, a temperatura subiu cerca de 0,8 grau e a expectativa para este século é de que aumente no mínimo 2 graus.
A Vale patrocinou o estudo dentro do seu projeto de desenvolvimento sustentado na região onde tem importante presença econômica. Em 2007,a mineradora investiu US$ 4 bilhões no Pará, dos quais US$ 110,2 milhões em projetos ambientais, um aumento de 834% ante 2006. No Maranhão, de US 1 bilhão investido, US$ 25,4 milhões se destinaram ao meio ambiente. De 2008 a 2012, a empresa planeja destinar somente ao Pará US$ 692,5 milhões a ações ambientais, dos US$ 2,8 bilhões que aplicará no segmento em todo o mundo.