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Atitude é a palavra
correta
Todo dia é a mesma
rotina. O aposentado Carlos Miranda, de 62 anos, vai pontualmente
pegar o neto na escola, de bicicleta. Ele mora em Icoaraci, distrito
da Grande Belém, e pelo caminho vê o que não gostaria de encontrar
com facilidade: lixo, sujeira, papel jogado no chão e restos de
materiais que poderiam ser reaproveitados, como a garrafa de
refrigerante, a famosa pet. Conscientizado e exercendo seu papel de
cidadão comprometido com o meio ambiente, Carlos recolhe tudo o que
pode na ida e na volta do colégio do neto, coloca na bicicleta e
leva para casa, aonde esse 'lixo' vai se transformar em produtos
diferentes e, claro, ecologicamente corretos.
'Me sinto na
obrigação de fazer isso, ainda mais que não enxergo esses materiais
como lixo, mas como algo que tenho a capacidade de agregar valor',
conta Carlos, que há alguns anos teve a ideia de reaproveitar
materiais e criar coisas para o dia a dia, como porta pão,
saboneteira, porta vaso e, o principal, bolsas. Segundo ele, foi
lendo uma revista com a filha que a ideia veio: 'Um dia eu folheava
uma revista sobre arquitetura e decoração e vi peças exclusivas,
totalmente produzidas com reciclados', diz. A partir daí, o
aposentado não parou e iniciou uma revolução contra o desperdício.
A atitude de Carlos é tida como um exemplo para toda
a sociedade, na opinião de Marcos Wilson, presidente da ONG Noolhar,
que também iniciou há alguns anos a mesma revolução contra o
desperdício e a favor do reaproveitamento, na capital paraense. |
Atualmente,
a Noolhar conta com centenas de voluntários que
fazem o recolhimento de materiais recicláveis e
entregam na oficina da ONG para serem
reutilizados. Para Marcos, as pessoas precisam
se confrontar com situações de boa vontade e
criatividade como as do aposentado para se
sentirem motivadas a colaborar com a preservação
da natureza.
Assim como Carlos
serve de exemplo para a sociedade, a Noolhar é
referência para muitos na conscientização
ambiental, inclusive para o próprio Carlos. Ele
conta que conheceu o trabalho da ONG quando foi
convidado para assistir a uma palestra sobre o
reaproveitamento de materiais. Segundo ele, a
pessoa que o convidou já conhecia o trabalho
feito por ele e pediu que levasse algumas coisas
para apresentar aos coordenadores da ONG. O
aposentado lembra que juntou alguns dos objetos
mais trabalhosos de fazer e levou para a
palestra. 'Depois que apresentei para a Noolhar
o que eu faço viramos parceiros, pois admiro
muito o trabalho deles e quero contribuir com eu
posso', afirma.
Serviço
Você pode fazer
a doação de material reciclado na oficina da
Noolhar, que fica na rua Riachuelo, n° 37,
esquina com a Padre Eutíquio, no Comércio. O
contato é 3222-2277.
'Sociedade
sabe, mas finge não saber'
Para o presidente
da Noolhar, Marcos Wilson, a 'revolução' do
Carlos se resume em uma palavra: atitude. 'É
atitude que falta no dia a dia da população.
Todos são capazes de recolher o material
reciclável; não precisa esperar o poder público
para fazer isso', afirma Marcos, que diz ter na
ONG diversos voluntários que realizam o
recolhimento de materiais reaproveitáveis em
suas respectivas casas e entregam na oficina da
Noolhar. Alguns desses, inclusive, garante
Marcos Wilson, recolhem o material de toda a
vizinha de onde vivem.
Carlos concorda
com a opinião de Marcos e afirma que a 'sociedade
sabe, mas finge não saber' do lixo que está à
sua volta e que poderia ser transformado em
muitas coisas. Ele acredita que isso seja
preguiça de ter uma atitude como a que o
presidente da Noolhar exemplificou - uma atitude
engajada com a preservação do meio ambiente. Por
isso, independentemente das técnicas de trançado
e entre outras usadas para fazer a bolsa de pet,
ele revela como é fácil colaborar: 'Se você não
quer fazer nada com o que você pode recolher,
não faça, mas recolha e doe para alguém que vai
reaproveitar tudo isso e, assim, ajudar a
natureza'.
E basta separar
o material para reciclagem em um saco separado
dos alimentos, pois mesmo que você não entregue
para uma cooperativa ou associação um catador
poderá recolher este material.
Usar a imaginação é o primeiro passo para
reciclar o lixo
Entre os objetos
mais produzidos por Carlos está a bolsa de
garrafa pet. Um trabalho minucioso, que requer
técnica adquirida com alguns anos de prática e
dedicação ao reaproveitamento de materiais.
Apesar da dificuldade a primeira vista, o
aposentado ensina: 'Precisamos de fitas de pet
com 12 centímetros de cumprimento por 2,5
centímetros de largura; isso conseguimos cortado
em tiras uma garrafa de refrigerante lisa;
depois de reservamos as fitas, vamos utilizar
fio de nylon e uma agulha de pescador para dar
forma à bolsa com uma técnica que eu chamo de ‘trançado’',
explica.
A bolsa é o objeto
mais impressionante dos que são criados por
Carlos. Marcos, da Noolhar, conta que todos que
veem o trabalho feito nessas bolsas demoram a
acreditar que elas sejam feitas de pet, em
virtude do rico trançado e brilho proporcionados
pelo plástico. 'Os outros objetos que faço
também despertam elogios das pessoas que
conhecem meu trabalho, mas a bolsa é o que chama
mais a atenção', revela o senhor de 62 anos que
deixa uma dica: 'Além de usar, na verdade
reaproveitar os recicláveis, eu também uso
bastante a imaginação, que me levar transformar
o lixo em algo com valor'.
Apesar de ter o
trabalho elogiado por muitas pessoas, Carlos,
que trabalha sozinho no seu projeto, não tem
pretensões comerciais. Segundo ele, os produtos
são apenas vendidos quando há algum motivo
especial; é quando ele arrecada dinheiro para
ajudar crianças com necessidades especiais
alunas da esposa dele, que leciona em uma escola
de Icoaraci.
A ONG também
vai além da preservação da natureza e atua com a
instrução socioambiental de comunidades carentes,
a partir da geração de renda com a confecção de
produtos que têm como matéria-prima os materiais
descartáveis, que poderiam parar nos lixões,
canais da cidade e acabam voltando para o dia a
dia da sociedade, nas enchentes e em outras
situações. Por meio da Noolhar, o que era lixo
se transforma em pufes, brinquedos, sacolas e
artigos de decoração personalizados.
Fonte: Amazônia Jornal
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